Azul Espiga

 

... é o Vento antigo que carrega consigo, embaladas nas brisas, as sementes das memórias dos nossos antepassados. Tempos que se encontram com outros tempos, vidas que se cruzam com outras vidas, construindo momentos, marcando o azul de cada alma e dando assim esta tonalidade às canções dos nossos avós.

 

 Novos Ventos plantam as sementes viajadas pelo tempo, recriando novas raízes de roseiras bravas, regadas pela melodia colorida que nos traz reminiscências do que outrora fomos. Brotam os rebentos com a pureza natural das palavras, retratos transcrevendo a tinta, a fragilidade de olhares, sentidos abraços de boas vindas, tristes sorrisos de adeus.

 

 Que estes novos Ventos soprem, com a força que lhes é trazida pelos seus anciãos, espalhando as eruditas sementes memoriais, e lembrando, que antes de nascer a primeira espiga, na sua simplicidade pura e deslumbrante, também esta criou raízes e cresceu. Desta forma ou de outra... todos crescemos de algo, criando o futuro hoje, sem esquecer que foi o passado relembrado que nos criou.

 

(Bruno dias)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O pianista Alberto Rodrigues apresenta o álbum de estreia do projeto "Azul Espiga" no qual confluem duas correntes em busca de um país comum: as canções tradicionais portuguesas e o jazz. Tendo herdado da infância a música e as histórias do trabalho no campo, Alberto Rodrigues utiliza a riqueza melódica destas como espinha dorsal de um trabalho cuja profundidade harmónica e rítmica dos arranjos conferem aos temas texturas e intensidades surpreendentes enriquecidas pela voz e acordeão de Ricardo Augusto. Para o concerto, Luís Belo e Ana Seia de Matos construíram o universo visual de onze canções, feito de imagens, animações, de filmagens que complementam e exaltam o espírito tradicional das músicas que compõem o espetáculo. Com o mesmo espírito, Rui Mota Pinto, é autor do vídeo de Ó que lindo par eu levo em que a respetiva narrativa conta com a participação do Rancho Folclórico de Pinho.

Este disco tem o carimbo GiraDiscos, uma discográfica viseense que procura promover trabalho de qualidade na música portuguesa.

 

SOBRE O CONCERTO

 

O piano, a voz e o acordeão enchem qualquer sala que habitem durante a hora em que se fazem ouvir. Para lá da componente musical, um dos elementos diferenciadores deste espetáculo é a sua vertente multimédia. Para cada uma das canções do álbum foram criados vídeos pensados para ser exibidos durante cada canção. A imagem torna-se uma componente indissociável da música e vice-versa. Deste modo o espetador, mesmo aquele já conhecedor das canções, terá sempre algo de novo que pode apreciar.

É de sublinhar que, embora pensado para espaços fechados, este concerto intimista resulta bem em noites de verão para um público maior. Exemplo disso foi o concerto no Museu Nacional Grão Vasco onde uma plateia esgotada assistiu embebida ao concerto num claustro com a projeção do vídeo a ser feita diretamente na parede.

 

 

"A MÚSICA PORTUGUESA COMO NUNCA HOUVERA OUVISTO”

(Publicado originalmente no jornal Via Rápida em Junho 2015. Texto de Carlos Vieira e Castro).

 

(…) Azul Espiga, é o nome do deste projeto musical que se propôs abordar algumas das melodias mais belas e aparentemente simples da música popular e tradicional portuguesa utilizando uma linguagem musical sofisticada do ponto de vista harmónico, rítmico e tímbrico, como é o jazz. Sem ponta de pretensiosismo. O jazz não serve de verniz em madeira velha para nos impressionar com o brilho. Deixa-se espreitar no acetinado das modulações tímbricas, próprias da semântica jazzística. As canções fluem naturalmente, emocionam-nos pela sensibilidade dos arranjos que realçam de forma inovadora a beleza das melodias, pela mestria do Alberto Rodrigues no piano, donde extrai um notável vigor percussionista (fabuloso em “Vira do Minho” e “A minha Saia Velhinha”), e do Ricardo Augusto no acordeão, que surpreendeu, pela voz límpida e segura de barítono e pela inspirada interpretação. Nada parece estar a mais, nem a menos. Um piano de cauda, um acordeão e duas vozes enchem-nos os ouvidos e a alma. O palco parece pequeno, também graças ao excelente trabalho videográfico da Ana Seia de Matos e do Luís Belo, e ao do Rui Mota Pinto no tema “Ó que lindo par eu levo”.

Fica provado que não é preciso muita parafernália instrumental para fazer bons arranjos musicais. Tal como na gastronomia, em que o excesso de condimentos e temperos só serve, por vezes, para tentar disfarçar a má culinária, também na música, genial é fazer-nos vibrar com a arte de tornar simples o que é estruturalmente complexo. Outros já tinham interpretado a música tradicional portuguesa através da linguagem do jazz, como Maria João (“S. João”, “Mãe, dou-lho ou não?”) ou com linguagem dita “erudita”, como Lopes Graça ou Eurico Carrapatoso, mas há em Azul Espiga uma invulgar originalidade. (…)